Os primatas, como você sabe, costumam coexistir em grupos e, apesar de haver indivíduos que vivem sozinhos, normalmente, esses animais formam estruturas sociais bem definidas — com características que variam de uma espécie a outra. Os chimpanzés, por exemplo, assim como os bonobos, vivem em comunidades com até 100 ou 150 membros e, dentro dessas grandes comunidades, eles se dividem em grupos menores, com algo em torno de 3 a 15 integrantes.

Outra característica dos chimpanzés é que existe uma hierarquia clara dentro dos grupos, onde um ou dois machos dominantes — no caso, o alfa e o beta — comandam as coisas, e os demais machos e fêmeas do núcleo são submissos a eles. Um fator interessante é que essa hierarquia pode mudar por influência de coalizões entre outros machos, e inclusive podem ocorrer conflitos pra lá de violentos pelo poder. Tendo esclarecido isso…

Barbárie na selva

De acordo com Yasmin Tayag, do portal Inverse, pesquisadores da Universidade Estadual de Iwoa se depararam com uma situação bastante inusitada — e ligeiramente perturbadora. O time acompanhava um grupo de chimpanzés senegaleses da subespécie Pan troglodytes verus há alguns anos e, recentemente, descobriu que um dos integrantes, mais precisamente, um antigo macho alfa especialmente tirano, havia sido brutalmente assassinado.

Segundo Yasmin, quando os pesquisadores começaram a seguir os primatas, o chimpanzé que morreu, batizado pelos pesquisadores de Foudouko, era o líder do grupo e compartilhava o comando com outro indivíduo, o chimpanzé beta Mamadou. Foudouko, conforme explicaram os pesquisadores, não era um macaco muito legal — tanto que ele foi apelidado de Saddam pelos pesquisadores! —, e apresentava um comportamento meio opressivo demais.

Esse acima é Foudouko morto

Só que Foudouko era fiel ao seu braço-direito, Mamadou. Acontece que Mamadou sofreu um ferimento durante seu “mandato” como “vice” e acabou sendo forçado a abdicar do cargo — por se tornar um membro mais debilitado do grupo, ele teve que se afastar. E Foudouko, que decidiu manter laços estreitos com o amigo, acabou sendo isolado pelos chimpanzés mais jovens que formaram uma coalizão.

Pois, ao longo dos anos, o macho alfa tentou retomar a sua antiga posição diversas vezes, e chegou a ser agredido pelos demais machos do grupo. Então, os embates entre o antigo tirano e os novos líderes chegaram ao fim quando Foudouko achou que poderia arrastar uma asinha para cima de uma das fêmeas e reassumir o controle — e ele foi espancado até a morte.

De acordo com os pesquisadores, quando o cadáver do chimpanzé foi encontrado, um de seus pés, as costas e o ânus apresentavam ferimentos sangrentos, e análises posteriores revelaram vários danos em seus órgãos internos.

Como se fosse pouco, os pesquisadores observaram que, mesmo depois de Foudouko já ter morrido, seus antigos “súditos” continuaram a massacrar seu corpo com pedras e paus. Ademais, alguns integrantes do grupo — com uma veia meio Hannibal Lecter, diga-se de passagem — foram vistos comendo partes do cadáver, e uma fêmea aparentemente inclusive tentou arrancar seu pênis a mordidas!

A culpa pode ser nossa

Esse comportamento extremamente violento do grupo chamou bastante a atenção dos pesquisadores, já que não é comum que membros dessa subespécie específica mostrem temperamento tão agressivo. Além disso, é realmente intrigante que eles tenham se organizado dessa forma para matar um indivíduo.

Esse comportamento extremamente violento é raríssimo

Entretanto, os pesquisadores explicaram que esse grupo em especial contava com um número de fêmeas estranhamente baixo. Os cientistas suspeitam que a caça ilegal de chimpanzés fêmeas no Senegal — para que elas sejam vendidas como animais de estimação — possa ter criado um desequilíbrio que resultou em uma maior competição entre os machos.

De qualquer maneira, embora o aumento da violência entre os machos alfa do grupo por conta da falta de fêmeas seja compreensível, o assassinato de Foudouko está sendo tratado pelos pesquisadores como um incidente único. Os cientistas também explicaram que a própria abordagem do chimpanzé, de forçar o seu retorno como alfa grupo, também serviu como sua sentença de morte.