Talvez você torça o nariz quando ouve sobre alguma comida da culinária russa — que vai de pratos com caviar e creme azedo a gordura de porco crua e gelatina de carne. Entretanto, os pratos exóticos jamais poderiam ser associados a apenas um único país ou mesmo a uma única época.

Não é de hoje, afinal, que se comem coisas nojentas, estranhas ou exóticas. Senão, o que você diria sobre ingerir parte do que vem com os excrementos de baleia? Ou então sobre uma saborosa torta feita de vinagre — cujo surgimento é devido ao alto preço do limão em outros tempos?

Comida: As 10 mais estranhas da História
Uma comida compartilhada de pele de baleia com camada de gordura (Muktuk).

Naturalmente, assim como vários outros tipos de comida que fazem virar os olhos e o estômago em um primeiro contato, também esta bem temperada lista traz iguarias que devem ser tão estranhas quanto apetitosas — supondo-se que você consiga levar aquele bocado de ovo de iguana até a boca sem ficar enjoado ou fingir um acidente durante o percurso.

Sem mais, vamos a 10 dos tipos de comida mais estranhos que fazem ou que já fizeram parte da culinária mundial. Há de tudo: de frutas e vegetais a animais voadores, rastejadores e nadadores. Bom apetite.

1Arganaz recheado

O arganaz é uma espécie de roedor semelhante ao hamster. Trata-se daquele bichinho curioso encontrado no meio da fauna excêntrica da obra “Alice no País das Maravilhas”. Longe da fantasia, entretanto, os romanos cultivavam o hábito de engordar esses “ratos” para compor um dos pratos mais apreciados da Roma Antiga. Sim, os ratinhos viravam comida!

Arganaz recheado
Fonte da Imagem: Wikimedia Commons (Comida)

Ocorre que o arganaz costuma hibernar durante todo o inverno. Entretanto, quando colocado em um recipiente denominado de “glirarium”, a escuridão fazia com que ele permanecesse em hibernação durante todo o ano — embora não antes de estocar uma grande quantidade de alimentos.

Como resultado, ao final do ano havia roedores obesos e prontos para o recheio de nozes e para ser assado com mel e especiarias. Atualmente, o arganaz é caçado apenas em algumas partes da Eslovênia e da Croácia, onde é considerado um prato fino.

2Geleia de bexiga de peixe

A ictiola é uma espécie de cola obtida da bexiga natatória dos peixes, algo semelhante ao colágeno. Embora seja utilizada mais tradicionalmente nos processos de clarificação do vinho e da cerveja — incluindo a celebrada Guinness —, essa substância acabava muitas vezes virando a refeição em diversas mesas da Inglaterra Vitoriana. Com ação análoga à da pectina, a ictiola era utilizada para dar a consistência de geleia a uma receita que também levava açúcar, suco de limão e frutas.

Geleia de bexiga de peixe
Fonte da Imagem: Wikimedia Commons (Comida)

3Muktuk (pele de baleia com gordura)

Residentes do Ártico não podem ser lá muito seletivos na hora de comer. Tradicionalmente, a comida dessas regiões vem quase que exclusivamente do mar — com pescas o ano inteiro e estações para caça de focas e baleias. De fato, o chamado “Muktuk” é obtido desses grandes mamíferos, embora a baleia-da-groenlândia seja a favorita.

Trata-se de pedaços de pele de baleia com pequenas camadas de gordura — o que, dizem os locais, é algo incrivelmente delicioso. O Muktuk pode ser comido fresco, salgado, frito ou em conserva, sempre com a inconfundível consistência elástica.

Muktuk (pele de baleia com gordura)
Fonte da Imagem: Wikimedia Commons (Comida)

O Muktuk é também considerado de suma importância em dietas mais tradicionais, já que é uma fonte bastante pródiga de vitamina C (vital para evitar doenças como o escorbuto). Diversas culturas árticas possuem formas próprias de ingerir a iguaria, incluindo aborígenes da Groenlândia, do Canadá, da Sibéria e do Alásca. Não obstante, o consumo desse prato diminuiu nos últimos anos por variações de sabor das sucessivas gerações e também por preocupações relacionadas às toxinas encontradas atualmente nos oceanos.

4Torta de vinagre

Conta-se que a torta de vinagre surgiu inicialmente como um método para baratear receitas. Embora a origem seja vaga, acredita-se que a utilização do vinagre em tortas teve início em meados do século 19, quando alguns cozinheiros passaram a utilizar cidra de maçã como aromatizante — produto, à época, consideravelmente mais barato do que frutas ou suco de limão.

Torta de vinagre
Fonte da Imagem: Wikimedia Commons (Comida)

O prato chegou a ser conhecido na época domo “Torta de Limão de Homem Pobre”. Mais adiante, as necessidades surgidas na Grande Depressão dos EUA igualmente deram origem a receitas inventivas, incluindo a mistura de bolachas e suco de limão em tortas para fazer as vezes da maçã.

Quanto à torta de vinagre, entretanto, há quem garanta que, se bem-feita, é de lamber os beiços. De fato, há atualmente versões bem menos baratas do que as originais de 1800, algumas delas aromatizadas por vinagres balsâmicos.

5Salada em gelatina

A prática de enfiar praticamente qualquer comestível em gelatina se popularizou na metade do século passado, quando a produção industrial de gelatinas como a tradicional Jell-O tornou possível pratos cada vez mais rápidos e práticos. Havia receitas de saladas congeladas por toda parte, com ingredientes que incluíam camarões, nabo, carnes variadas e vegetais.

Salada em gelatina
Fonte da Imagem: Wikimedia Commons (Comida)

Tratava-se ainda de uma forma relativamente mais fácil de fazer com que toda a família ingerisse alimentos saudáveis — incluindo algumas receitas particularmente apetitosas com cobertura de maionese. Os pratos salgados com gelatina se tornaram tão tradicionais, que a própria Jell-O passou a oferecer versões com sabor de tomate, pepino etc.

6Garça assada

O livro “The Forme of Cury” foi um dos primeiros publicados em língua inglesa. E os pratos ali cobriam uma grande porção da fauna então disponível, desde golfinhos a baleias, focas e garças.

Garça assada
Fonte da Imagem: Wikimedia Commons (Comida)

Embora não se saiba realmente quem escreveu a obra, dada a enorme quantidade de ingredientes raros e caros, acredita-se que o The Forme of Cury foi concebido para a cozinha da realeza — capaz de se adequar a qualquer coisa que as cabeças coroadas trouxessem após um dia de caça. O livro também é notável por ser, aparentemente, um dos primeiros a utilizar métodos associados à chamada “cozinha de fusão”, que funde elementos de culturas distintas.

7Ovos de iguana

Comumente, associa-se à ideia de ovos comestíveis qualquer coisa que possua penas sobre o corpo. Entretanto, caso você pertencesse ao antigo povo maia, essa ligação não estaria sempre correta. Isso porque os maias eram grandes apreciadores dos ovos da chamada “iguana negra” — refeição bastante importante para um povo pouco afeito a ingerir proteínas diretamente da carne dos animais.

Ovos de iguana
Fonte da Imagem: Wikimedia Commons (Comida)

Ademais, as iguanas negras possuem ainda outra vantagem que era sumamente importante para aventureiros. Por passar menos tempo imersa em água (se comparada com a iguana verde), a espécie era ideal para gerar provisões ao longo de uma viagem. Atualmente, tanto a caça quanto a criação de iguanas em cativeiro são consideradas ilegais em grande parte da América Central e da América do Sul.

8Sanduíche de torrada

Ok, não há realmente nada de asqueroso ou incrivelmente estranho aqui. Entretanto, não se pode negar certa excentricidade à prática de comer um sanduíche cujo recheio é uma torrada — quer dizer, três fatias de pão empilhadas, sendo uma delas tostada. A receita foi encontrada pela primeira na obra “Miss Beeton’s Book of Household Management”, livro de receitas lançado em 1861 e incrivelmente popular até hoje.

Sanduíche de torrada
Fonte da Imagem: Wikimedia Commons (Comida)

Em 2011, a badalada Royal Society of Chemistry chegou a organizar um banquete com sanduíches de torrada. O nome: “A mais barata das refeições britânicas”. É verdade que há também algumas versões mais nutritivas do prato, incluindo cenoura ou bacon, por exemplo.

9Âmbar cinzento

O chamado âmbar cinzento é formado no intestino da cachalote. Trata-se de uma mistura de bílis e gordura formada no entorno de substâncias duras, de digestão difícil para o animal. Embora tenha sido extensivamente utilizado como fixador para perfumes — incluindo o celebrado Chanel No. 5 —, também houve quem ingerisse a substância como um raro e delicado quitute.

Âmbar cinzento
Fonte da Imagem: Wikimedia Commons (Comida)

A secreção biliar da cachalote já se combinou com chocolate quente na França, por exemplo. Além disso, há quem diga que o escritor boêmio Giacomo Casanova utilizava a substância por suas pretensas propriedades afrodisíacas. Já na China antiga acreditava-se simplesmente que o âmbar cinzento encontrado nas praias era saliva de dragão.

10A Comida “So”

O chamado “So” é um prato particularmente curioso quando se considera um traço muito característico da cozinha japonesa: a quase ausência de alimentos derivados do leite. Na verdade, o “So” é o único dessa natureza registrado na história milenar da Terra do Sol Nascente — em que o gado não era criado pela carne ou pelo leite, mas sim para puxar o arado nas plantações.

A Comida "So"
Fonte da Imagem: Wikimedia Commons (Comida)

A receita foi produzida sobretudo entre os séculos 8 e 14, normalmente para pessoas pertencentes às classes nobres. O “So” é obtido fervendo-se o leite até que ele se torne uma pasta quase sólida. Entretanto, o prato era ingerido mais por status do que por ser propriamente apreciado — embora, originalmente, a ideia fosse simplesmente encontrar uma forma de preservar o leite em um período anterior aos refrigeradores e à pasteurização.